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O Nascimento de Cristo na História

Painel de Azulejos em Gilmonde, Barcelos, Portugal. (Fábrica Aleluia, Aveiro, 1988)


Análise histórica
A maioria dos estudiosos da corrente principal (ou mainstream: pensamento ou gosto corrente da maioria da população) não acredita que os relatos da Natividade, de Lucas e Mateus, sejam historicamente factuais. Outros acreditam que esta discussão é secundária, pois os evangelhos foram escritos primariamente como documentos teológicos e não como cronologias históricas.
Como exemplo, citam que Mateus presta muito mais atenção ao nome da criança e às suas implicações teológicas do que ao evento do nascimento em si e, segundo Karl Rahner (1904-1984), sacerdote católico jesuíta de origem germânica e um dos mais influentes teólogos do Século XX, os evangelistas demonstram pouco interesse em sincronizar os episódios do nascimento ou da vida posterior de Jesus com a história secular da época.
Como resultado, os estudiosos modernos geralmente não fazem uso das narrativas da Natividade como fonte de informações históricas. Seja como for, a narrativa do nascimento contém algumas informações biográficas úteis. O facto de Jesus ter nascido perto do fim do reinado de Herodes ou o nome de seu pai (José), são considerados "historicamente plausíveis".

Jesus Cristo como Bom Pastor. Pintura de tecto dos
primeiros cristãos (cerca de 250 d.C.) nas Catacumbas de
S. Calixto, em Roma.


O Jesus histórico
O termo «Jesus histórico» refere-se a uma tentativa de reconstruções académicas da figura de Jesus de Nazaré, levadas a cabo no primeiro século. Estas reconstruções são baseadas em métodos históricos, incluindo a análise crítica dos evangelhos canónicos como a principal fonte para a sua biografia, juntamente com a consideração do contexto histórico e cultural em que Jesus viveu.
A pesquisa sobre o Jesus histórico teve início no Século XVIII e desenvolveu-se, até aos nossos dias, em três fases, preocupadas em reconstruir os factos históricos e a pessoa humana de Jesus, que ficavam como que escondidos atrás das afirmações dogmáticas e de fé das Igrejas.

Página do «Codex Vaticanus B», do Século IV (300-325), Biblioteca do Vaticano, onde
termina a leitura de 2 Edras e começa a leitura de Hebreus. É um dos mais
antigos manuscritos da Bíblia Grega (Antigo e Novo Testamento).
Os evangelhos canónicos são a principal fonte de informação sobre Jesus histórico.


A busca de Jesus Cristo Histórico
  • David Friedrich Strauss (1808-1874), teólogo e filósofo alemão, foi um dos pioneiros da busca de «Jesus Histórico». Aos 27 anos de idade, rejeitou todos os elementos sobrenaturais, classificando-os como elaborações míticas. A sua obra de 1835, "Das leben Jesu: Kritisch bearbeitet", foi uma das primeiras e mais influentes análises sistemáticas da história e da vida de Jesus, baseando-se na pesquisa histórica imparcial. Strauss considerou que os registos milagrosos da vida de Jesus nos Evangelhos, em termos de mitos, surgiram como resultado da imaginação das comunidades cristãs, que foram recontando as histórias e representaram eventos naturais como sendo milagres.

Imagem da Cripta dos Papas (Século III), catacumbas de S. Calixto, Roma. 


Ao longo dos últimos 150 anos, os historiadores e estudiosos bíblicos têm feito grandes progressos na busca do Jesus Histórico entre os quais se destacam:
  • Joseph Ernest Renan (1823-1892), escritor, filósofo, teólogo, filólogo e historiador francês. Destacou-se principalmente pelas suas controversas obras sobre Jesus de Nazaré e o Cristianismo Primitivo, assim como pelas suas polémicas teorias acerca dos povos semitas e do Islão, os tipos de raças e o conceito «espiritual» de nação;
  • Joahannes Weiß (1863-1914), teólogo e protestante alemão e William Wrede (1859-1906), teólogo luterano alemão, trouxeram os aspectos escatológicos do ministério de Jesus para a atenção do mundo académico. Ambos eram apaixonadamente anti-liberais e as suas apresentações estavam orientadas para enfatizar a natureza incomum do ministério e ensinamentos de Jesus. Wrede escreveu sobre o tema do segredo messiânico do Evangelho de São Marcos, argumentando que era um método utilizado pelos primeiros cristãos para explicar que Jesus não pretendia proclamar-se a si mesmo como o Messias;
  • Albert Kalthoff (1850-1906), filósofo e teólogo reformador alemão, no seu livro "Existiu o Jesus Histórico?", editado em 1904, escreveu:

«Um Filho de Deus, Senhor do Mundo, nascido de uma virgem e ressuscitado após a morte, e o filho de um pequeno construtor com noções revolucionárias, são dois seres totalmente diferentes. Se um foi o Jesus histórico, o outro certamente não o era. A verdadeira questão da historicidade de Jesus não é simplesmente se alguma vez houve um Jesus entre os inúmeros candidatos ao messianismo na Judeia, mas se temos de reconhecer a natureza histórica deste Jesus nos Evangelhos e se ele foi considerado o fundador do cristianismo».

  • Albert Schweitzer (1875-1965), médico, filósofo, músico, pastor e teólogo protestante alemão nascido na Alsácia, que fazia parte do Império Alemão e faz parte, actualmente, da região do Alto Reno, em França. Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1952 por fundar o Hospital Lambaréne, no Gabão. Com seu trabalho revolucionário “Von Reimarus zu Wrede” (The Quest of the Historical Jesus; A Critical Stdudy of its Progress from Reimarus to Wrede) - ("A busca de Jesus Histórico: Um Estudo Crítico da sua Evolução desde Reimarus a Wrede"), iniciado em 1906, até ao controverso ”Jesus Seminar”, muito foi aprendido. Schweitzer denunciou a subjectividade dos diversos autores, que introduziram as suas próprias preferências no carácter de Jesus e argumentou que todas as apresentações de Jesus do Século XIX tinham maximizado ou negligenciado a mensagem apocalíptica de Jesus. Desenvolveu a sua própria versão do retrato de Jesus no contexto apocalíptico judeu. Convencido de que a busca de um Jesus histórico seria inútil, abandonou os estudos bíblicos e foi para África como missionário e médico.

Albert Schweitzer

O objectivo destes estudiosos é examinar as provas de diversas fontes com a finalidade de as trazer em conjunto para que se possa elaborar uma reconstrução completa de Jesus.
O uso do termo do «Jesus Histórico» implica que a sua reconstrução será diferente daquela que é apresentada no ensino do Cristo da Fé pelo Cristianismo. Assim, a montagem do Jesus histórico, às vezes, difere dos judeus, cristãos, muçulmanos ou crenças hindus.
A busca pelo Jesus histórico iniciou-se com o trabalho de Hermann Samuel Reimarus no Século XVIII. Dois livros, ambos chamados "A Vida de Jesus", foram escritos por David Friedrich Strauss e publicados em alemão em 1835-1836. Ernest Renan publicou um livro em francês no ano de 1863. O Jesus histórico é conceptualmente diferente do Cristo da fé. Para os historiadores o primeiro é físico, enquanto o último é metafísico. O Jesus histórico é baseado em evidências históricas. Cada vez que um rolo de papel novo é descoberto ou fragmentos de um novo Evangelho são encontrados, o Jesus histórico é modificado.

A Palestina na época do nascimento de Jesus, 4 a.C. a 30 d.C.. Inclui o domínio de Herodes, a cor de rosa,
o domínio de Filipe, filho de Herodes, a verde e os territórios controlados pelos sírios 
(mais tarde pelos romanos) a cor de laranja.




O Nascimento de Jesus Cristo na História
A primeira evidência histórica para celebrar o nascimento de Cristo surgiu na primeira metade do Século III, com Hipólito (170-236), bispo de Roma. Até ao ano 300 d.C., o nascimento de Jesus era comemorado pelos cristãos em diferentes datas. Em 354 d.C. o Papa Libério ordenou que os cristãos celebrassem o nascimento de Cristo no dia 25 de Dezembro. O Imperador Romano, nesse tempo, era Justiniano.
Provavelmente, Hipólito escolheu esta data porque em Roma já se comemorava o “Dia de Saturno” (festa chamada de Saturnália). A religião mitraica dos persas (inimiga dos cristãos) comemorava neste dia o "natalis invicti solis" - ("o nascimento do vitorioso Sol”).
Em 440 d.C. foi oficializado o 25 de Dezembro como o dia do nascimento de Jesus Cristo. Com a finalidade de cristianizar os cultos pagãos, o clero corrupto da era das trevas (de Constantino até à Idade Média), tentou por todos os meios conciliar o paganismo com o cristianismo.

"Natividade", 1746, 1754. Painel de azulejos portugueses. Basílica do
Senhor do Bonfim, São Salvador da Baía, Brasil.


O nascimento de Jesus na Bíblia Sagrada
O Nascimento de Jesus, chamado também de Natividade, é uma referência aos relatos do nascimento de Jesus presentes principalmente nos evangelhos de Lucas e Mateus, mas também em alguns textos apócrifos.
Os evangelhos canónicos de Lucas e Mateus contam que Jesus nasceu em Belém, na província romana da Judeia, de uma mãe ainda virgem. No relato do Evangelho de Lucas, José e Maria viajaram de Nazaré para Belém para comparecer a um censo. Jesus nasceu durante a viagem numa simples manjedoura. Os Anjos proclamaram-no salvador de todas as pessoas e os pastores vieram adorá-lo. No relato de Mateus, foram os astrónomos que seguiram uma estrela até Belém para levar presentes a Jesus, nascido como o "Rei dos judeus". O rei Herodes ordenou em seguida o massacre de todas as crianças masculinas com menos de dois anos de idade, mas a família de Jesus conseguiu escapar para o Egipto. Depois da morte de Herodes, a família voltou para Nazaré.
Muitos académicos defendem que as duas narrativas são contraditórias e não são históricas. Outros estudiosos cristãos defendem, ao contrário, que não existe nenhuma contradição, destacando as semelhanças entre os relatos. Finalmente, há os que entendem que a discussão sobre a historicidade dos evangelhos é secundária, argumentando que eles foram escritos como documentos teológicos e não como cronologias históricas.

Parte superior esquerda de um sarcófago paleocristão, em mármore, de
Marcus Claudianus (330-335 d.C.). É uma das mais antigas representações
da Natividade que se conhecem. Museu Nacional de Roma, Itália.


Narrativa bíblica
Mateus 1
18 Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo.
19 Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente.
20 Mas, depois de ter pensado nisso, apareceu-lhe um anjo do Senhor em sonho e disse: "José, filho de Davi, não tema receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado procede do Espírito Santo.
21 Ela dará à luz um filho, e você deverá dar-lhe o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados".
22 Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo profeta:
23 "A virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamarão Emanuel", que significa "Deus connosco".
24 Ao acordar, José fez o que o anjo do Senhor lhe tinha ordenado e recebeu Maria como sua esposa.
25 Mas não teve relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho. E ele lhe pôs o nome de Jesus.

"O evangelista Mateus inspirado peloAnjo", 1661, óleo sobre tela
do pintor holandês Rembrandt, Museu Louvre-Lens, Lens, França. 


Lucas 2
1 Naqueles dias, César Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o império romano.
2 Este foi o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador da Síria.
3 E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se.
4 Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galileia para a Judeia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi.
5 Ele foi a fim de alistar-se, com Maria, que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho.
6 Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebé,
7 e ela deu à luz o seu primogénito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

"São Lucas mostra uma pintura da Virgem com o Menino", 1562/1563,
do pintor italiano Guercino, Museu de Arte Nelson-Atkins, Kansas City, Missouri, EUA.

A data do nascimento de Jesus
Os relatos dos evangelhos de Mateus e Lucas não mencionam uma data ou estação do ano para o nascimento de Jesus.
Karl Rahner (1904-1984), sacerdote católico jesuíta de origem germânica e um dos mais influentes teólogos do Século XX, afirma que os evangelhos, de forma geral, não provêem informações cronológicas suficientes para satisfazer as demandas de um historiador moderno. Mas tanto um quanto outros associam o nascimento de Jesus com a época de Herodes, o Grande e, por isso, a maior parte dos estudiosos geralmente assume uma data para o nascimento entre 6 a 4 a.C..

Porém, muitos estudiosos observam nos relatos uma contradição, pois enquanto o Evangelho de Mateus localiza o nascimento de Jesus durante o reinado de Herodes, que morreu em 4 a.C., o Evangelho de Lucas o faz dez anos depois da morte de Herodes, durante o censo de Quirino, descrito pelo historiador Josefo, filho de Mateus (37 a.C.-100 a.C.). A maioria acredita que Lucas se teria simplesmente enganado, enquanto outros tentaram reconciliar o relato com os detalhes fornecidos por ele, utilizando abordagens que vão desde "erros gramaticais" — a tradução da palavra grega prote, utilizada em Lucas, deveria ser lida como "registo" (censo) antes de Quirino ser governador da Síria — até argumentos arqueológicos e referências a Tertuliano sugerindo um "censo em duas fases" — que teria envolvido um registo inicial, baseado em Lucas 2:2, que cita um "primeiro recenseamento".

Tríptico de El Greco (1541-1514). Tempera sobre painel, Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina,
Monte Sinai, Israel. (Não confundir com Tríptico de Modena, do mesmo autor, existente na
Galeria Estense, em Modena, Itália.)


Apesar da celebração do Natal em Dezembro, nem Lucas, nem Mateus mencionam uma estação do ano para o nascimento de Jesus. Porém, argumentos académicos sobre o realismo dos pastores deixando os seus rebanhos pastando no inverno já foram propostos, tanto disputando um nascimento no inverno (no hemisfério norte) para Jesus quanto defendendo-o com base na brandura dos Invernos em Israel e nas regras rabínicas sobre ovelhas perto de Belém antes de Fevereiro.

Segundo Santo Agostinho, Pai da Igreja, no seu livro "De Trinitate" (4 volumes), a data do Natal foi estabelecida em 7 de Janeiro (hoje em dia modificada para 25 de Dezembro) porque uma tradição afirma que a concepção de Jesus foi no dia 8 de Abril e a gestação ocorreu durante 9 meses exactos. Eis o que diz o Pai da Igreja:
"Octauo enim kalendas apriles conceptus creditur quo et passus; ita monumento nouo quo sepultus est ubi nullus erat positus mortuorum nec ante nec postea congruit uterus uirginis quo conceptus est ubi nullus eminatus est mortalium. Natus autem traditur octauo kalendas ianuarias."
("Para o oitavo dia do mês de Abril acredita-se que a concepção se realizou e que também sofreu; então, um sepulcro novo, onde ninguém havia sido posto, em consonância com a concepção no útero da virgem, que é uma menina de quem ele foi concebido e onde não houve estratagema de mortais. A tradição diz que nasceu no oitavo dia do mês de Janeiro.")

Altar sob a Igreja da Natividade, em Belém. A estrela de prata no chão marca
 o local onde Jesus Cristo nasceu, de acordo com a tradição cristã.


O Natal e o nascimento de Cristo
Neste artigo, embora utilize o título "Nascimento de Cristo", este poderia levar qualquer outro título que se relacionasse com este, como por exemplo:
  • Natividade;
  • Natividade de Jesus Cristo;
  • Nascimento de Jesus;
  • Nascimento de Cristo;
  • Adoração dos Pastores;
  • Adoração dos Magos;
  • Natal.....entre outros.
Estes temas já foram amplamente retratados na cultura universal, tanto na escultura como na pintura e noutras artes, já para não falar de variadíssimos artigos escritos...

Ver  Origem e significado do Natal

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